Conhecemos o inimigo: somos nós
Estamos sem controle, dirigindo por uma rua escura, e grande parte do progresso se resume em aceleração. Quem faz a advertência é Peter M. Senge, o autor de A quinta disciplina, livro notável que aborda a arte e a prática da organização que aprende. Para Senge, reforçamos diariamente o curso da colisão de nosso sistema industrial “fora da lei”.
Fora da lei, para ele, significa violação das leis da natureza. Senge exemplifica: nenhum engenheiro construiria um avião que violasse as leis da aerodinâmica, ou que tivesse força de descensão. No entanto, estamos, juntos, fazendo funcionar um sistema econômico que viola as leis básicas dos sistemas naturais – apenas esperando poder mantê-lo em operação por tempo suficiente para que os problemas sejam solucionados por alguém que não nós mesmos.
As palavras de Peter Senge são sábias: não há desperdício na natureza – todos os produtos ou subprodutos de um sistema natural são insumos ou nutrientes de outros. Mas, segundo ele, estamos operando um sistema econômico que produz sobras, subprodutos visíveis ou invisíveis de nossos processos, que não podem ir a nenhum lugar – eles apenas se “acumulam”. Nunca na história da vida deste planeta houve uma espécie que destruísse tão sistematicamente outras espécies – até chegarmos. Também nunca houve uma espécie que destruísse seus semelhantes de forma tão cruel como os homens. Será que alguma espécie tem direito de fazer isso?
As sobras de nosso sistema produzem tragédias ambientais, como o aquecimento global em larga escala, que colocam uma grande interrogação sobre nossa capacidade de viver de forma sustentável no planeta Terra. Documento do Painel Internacional sobre a Mudança do Clima é categórico em apontar a atividade humana, incluindo a queima de combustíveis fósseis, como a causa principal do aquecimento global. “O mundo está enfrentando um desafio sem precedentes“, afirma Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e autor de Uma verdade inconveniente.
Com freqüência, questões como o aquecimento global são tratadas como algo fora da agenda do cidadão comum. Mas há uma sobra de nosso sistema que insiste em permanecer bem visível e próxima de nós: as bestas humanas produzidas por uma sociedade doente, que protagonizam episódios como o da morte do menino João Hélio Fernandes, no bairro Oswaldo Cruz, zona norte do Rio de Janeiro, na noite de 7 de fevereiro. É mais um resultado de nosso secular descaso com as questões sociais e com a educação de valores.
O crime que chocou o país revelou também nossa incapacidade de lidar com o problema. O Congresso Nacional se apressou em aprovar medidas legislativas para enfrentar a questão da criminalidade, mas a reação se assemelha à do motorista perdido, dirigindo na rua escura. Será que não é hora de produzir uma reação de mais qualidade, com mais estudo e discussão?
As panes social e ambiental são crises sistêmicas para as quais não estamos preparados. Representam subprodutos involuntários de nossa operação fora do controle. No caso da crise ambiental, especialmente, vale o ensinamento de Peter Senge: “Qualquer avaliação racional diria ‘diminua a marcha’. Tanta coisa está mudando que não conseguimos compreender. Portanto, deveríamos pelo menos diminuir a marcha e tentar readquirir algum equilíbrio e perspectiva, para compreender essas mudanças sistêmicas”.
No caso da crise social, quem já leu A quinta disciplina deve se lembrar do jogo da cerveja, em que os participantes, preocupados apenas em defender a posição individual, descobrem, ao fim da jornada, que seus problemas, e suas esperanças de melhoria, estão intrinsecamente associados a sua forma de pensar – e especialmente pensar o conjunto, o sistema, e não partes deles, como nossa cultura ocidental nos legou. A sensação de quem chega ao fim do jogo pode ser sintetizada na frase de Pogo, de Walt Kelly, um clássico das tiras de jornais norte-americanos: “Conhecemos o inimigo – somos nós”.
Estudo mostra que o número de adolescentes que cumprem medidas privativas de liberdade em todo o país cresceu 363% dos últimos dez anos. Mesmo assim, achamos que a solução é simples: basta mandar mais jovens – e por mais tempo – para as unidades de internação.
A questão que se coloca é a seguinte: menores como o que participou do assassinato de João Hélio Fernandes certamente têm consciência do que fazem e, nessa hipótese, devem responder penalmente pelo que fazem, ou têm desenvolvimento retardado e, nesse caso, não serão reabilitados para o convívio social em apenas três anos de internação.
Vamos, então, aumentar a pena para cinco anos? Teremos tantas unidades de internação para colocar tanta gente por tanto tempo? Será que, em cinco anos, esses menores sairão em condições de conviver com a sociedade? Ou sairão de lá mais preparados para o crime? Parece que essa é a tragédia brasileira, cujo enfrentamento requer mais do que fórmulas simplistas.
O senador Cristovam Buarque constatou que a tragédia é que, no Brasil, a maldade e a criminalidade deixaram de ser exceção e passaram a ser regra. É a banalização do crime e da violência. Estamos tão acostumados com o crime que passamos até a adjetivá-lo. Há crime hediondo e não-hediondo, como se houvesse crime a ser reprimido e crime a ser tolerado. Isso coloca em xeque nosso próprio conceito de civilização – será que caminhamos a passos largos para a barbárie, ou estamos em plena involução, como disse o senador, neste começo de século 21?
A propósito, é prudente reler a parábola do sapo escaldado – outra contribuição de A quinta disciplina. Se você puser um sapo em uma panela com água a temperatura ambiente, sem assustá-lo, ele ficará dentro do recipiente. Se colocar fogo na panela, aumentando a temperatura gradativamente, o sapo dará sinais de que está gostando. Com o aumento contínuo e gradativo da temperatura, o sapo, escaldado, acabará morrendo. Será que, no caso da banalização da violência, não corremos o mesmo risco do sapo? Será que teremos força suficiente para pular fora dessa panela de água quente?
Djalba Lima (djalba@communitate.com.br) é jornalista.






